Nova gestão da Associação Comercial quer reaproximar a entidade dos curitibanos

PRESIDENTE DA ACP PAULO MOURAO
Paulo Mourão é o novo presidente da ACP (Foto: Franklin de Freitas)

A Associação Comercial do Paraná está sob nova direção. Em fevereiro assumiu a presidência da entidade Paulo Sérgio Mercer Mourão, que vem da indústria e comércio de móveis e decorações e vai cumprir um mandato de três anos como presidente da ACP. Uma gestão que ele, em entrevista ao Estúdio Bem Paraná, promete que terá a missão de aproximar ainda mais a entidade da sociedade paranaense e curitibana. Isso, é claro, sem deixar de lado os interesses dos próprios associados.

Aliás, destaca ele, curioso notar como a ACP, hoje, não se restringe a atender o comércio. “A gente atende hoje desde indústrias, serviços e comércios, na atividade comercial dessas empresas. E a ideia mesmo é representar o setor produtivo nas suas demandas: necessidade de redução de tributos, um ambiente mais próspero para se empreender no Paraná e problemas segmentados, como a mudança da jornada 6 x 1”, comenta.

A Asssociação, inclusive, se coloca desde já contra o fim da jornada 6 x 1, pelo menos nos moldes da proposta atualmente em debate. A defesa é por uma discussão mais ampla antes de se tomar uma decisão sobre o assunto. Além disso, a entidade também se mostra favorável à internação involuntária de pessoas em situação de rua com graves transtornos mentais ou dependência química, que tem sido adotada pela Prefeitura de Curitiba.

Mas assuntos polêmicos à parte, uma das principais missões de Mourão será reaproximar a ACP da sociedade como um todo. E para isso ele já prepara algumas medidas, como o lançamento da Faculdade do Comércio, com cursos de graduação, pós-graduação e curta duração; a reativação do Conselho de Cultura (inclusive com a ACP entrando na pauta do Natal de Curitiba de 2026), e a criação de um hub de tecnologia, onde empresários poderão encontrar soluções para seus problemas comerciais.

“A ideia é aproximar a Associação Comercial do curitibano, porque a entidade teve uns períodos aí em que gerou uma certa antipatia. Por exemplo, com os posicionamentos no período da pandemia, a oposição ao feriado da Consciência Negra. A associação está buscando superar todas essas questões que ficaram”, destaca ele.

ENTREVISTA COMPLETA

PRESIDENTE DA ACP
PAULO MOURAO
Paulo Mourão atua na ACP há quase 20 anos e quer reaproximar a entidade dos curitibanos (Foto: Franklin de Freitas)

BEM PARANÁ: O senhor é ligado à indústria e comércio de imóveis e decorações, e pela primeira vez está na liderança de uma entidade do porte da ACP. Como é que faz para desligar um pouco do seu negócio e pensar no setor como um todo?
PAULO MOURÃO:
A entidade da área de imóveis, que é a ABIMAD [Associação Brasileira das Indústrias de Móveis de Alta Decoração], é uma entidade focada em imóveis de médio e alto padrão e ela está muito focada no negócio dos associados. É uma associação comercial, mas de nicho. A ACP é uma entidade representativa do setor produtivo paranaense e eu atuo na ACP já há quase 20 anos. Entrei na Associação pelas câmaras setoriais na época que o Virgílio [Moreira Filho] era presidente da casa. Participei de diversos conselhos: deliberativo, superior, político e, nessa última gestão, atuei como vice-presidente da área comercial. Por isso eu fui alçado à condição de presidente, viabilizei a minha candidatura. Então não vai ter dificuldade em se adaptar nesse papel agora de líder de um setor como um todo. Nos últimos três anos eu fiquei direto na ACP com o presidente Deggerone, então hoje eu conheço muito bem a vocação da ACP, conheço muito bem as entidades parceiras, conheço muito bem as áreas de negócio da casa que sustentam a nossa atividade de representação da sociedade produtiva.

BP: Então, falando um pouquinho da ACP, é uma entidade mais que centenária, que surgiu com o Barão do Serro Azul para representar os comerciantes da cidade, o quanto dessa vocação original, o quanto desse espírito original da ACP ainda existe hoje e é necessário hoje?
MOURÃO:
A gente preza muito a imagem do Barão. O Barão foi um empresário relevante na época que ele atuou aqui no Paraná, inclusive fundando a ACP, participou da fundação do Clube Curitibano e várias outras entidades. A ACP foi criada como Associação Comercial do Paraná, e por isso que a gente tem atuação no âmbito do Estado inteiro, através de entidades parceiras. A ACP hoje atende não só O comércio. As pessoas às vezes confundem que a Associação Comercial é para atender comércio. A gente atende hoje desde indústrias, serviços, comércios, na atividade comercial dessas empresas. E a ideia mesmo é representar o setor produtivo nas suas demandas: necessidade de redução de tributos, um ambiente mais próspero para se empreender no Paraná, que hoje até vai muito bem em relação aos demais estados, mas sempre precisa de uma melhoria contínua, problemas segmentados, como a mudança da jornada 6 para 1… Então, são diversos temas que a Associação Comercial hoje participa dessa discussão. E principalmente agora, no projeto da Prefeitura do retrofit do Centro da cidade.

BP: E o comércio mudou muito. Hoje existe tanto dentro dos shoppings quanto eletronicamente. Isso forçou um pouco essa abertura da ACP, essa mudança? O que levou a essa ampliação da atuação?
MOURÃO:
A ACP continuamente faz enquete com seus associados. Mais de 10 anos atrás, o grande problema do Brasil era entregar, era produzir. Nós demos um passo para trás. Todas as enquetEs que a gente faz hoje, o comércio de rua, o maior desafio deles é vender. O segundo é mão de obra qualificada. E o terceiro é a gestão do próprio negócio, com as diversas leis e alterações, que toda hora aparece algo novo. Então a gente busca auxiliar os associados. O vender, com a pandemia houve uma mudança de comportamento do consumidor. E não foi só a pandemia, a tecnologia propiciou isso. Então a gente hoje tem consumindo desde pessoas com 80 anos ou mais, que é terceira idade, sênior, vamos dizer assim, que está crescendo cada vez mais no Brasil, é um mercado de consumo muito forte, e temos os jovens, que através do meio digital também têm uma forte ferramenta de consumo. E o comércio de grande porte rapidamente se adaptou para atuar nessa plataforma que é o Omnichannel, integrando o digital com o físico. E os pequenos comerciantes não conseguiram, e hoje não adianta mais você ficar esperando o cliente entrar dentro da sua loja, do seu negócio, porque ele tem várias formas de comprar o que ele quer adquirir. Então esse é um desafio muito grande, atender essa nova demanda de vontades do consumidor, que ele hoje tem várias formas de consumir o mesmo produto.

BP: E como ajudar esse comerciante que ainda está nessa outra situação?
MOURÃO:
A gente precisa auxiliar o empresário a digitalizar a sua empresa, independentemente do tamanho. A gente tem percebido que depois da pandemia os grandes grupos comerciais e econômicos cresceram muito mais do que os pequenos, só que os empregos hoje estão nos pequenos empresários. Então, isso é um desafio que não é só da associação, é do governo também. O governo precisa abrir os olhos para esse movimento que vem ocorrendo, o enfraquecimento do poder econômico dos pequenos empresários. E o pequeno empresário é uma preocupação constante da Associação Comercial do Paraná.

BP: E aí nessa preocupação também entra essa questão da jornada 6×1, do fim da jornada 6×1?
MOURÃO:
Esse ano a gente começou com várias novidades, é um ano que é um desafio porque tem mais de 10 feriados prolongados, você tem Copa do Mundo, que dessa vez será à noite parece, os horários dos jogos, não vai ter influência no dia a dia das empresas, e temos eleição. A eleição já é um fato que a gente já está acostumado, que a cada dois anos tem eleição para o Brasil para poder viver em função da política. Agora, o feriado prolongado é uma preocupação muito grande, porque além da jornada seis por um, existe uma discussão também de proibir o comércio de abrir nos feriados de domingo. Outro dia estive conversando com um advogado trabalhista, e ele comentou que seria possível fazer acordo com os sindicatos. A princípio seria normatizado isso agora em março, mas aparentemente não tivemos ainda uma decisão, que seria via portaria do Ministério do Trabalho. Agora, a jornada seis por um, ela tem exatamente esse problema. As empresas não estão no nível de digitalização para compensar o horário fechado. Isso pode acarretar desde aumento de preços para o consumidor a um horário reduzido de atendimento ao consumidor. Então a gente precisa ter uma avaliação mais ponderada e mais detalhada para o segmento de negócio, e tem negócios que realmente vão ter um prejuízo muito grande. Hotelaria trabalha de segunda a domingo. Supermercado, a melhor época para comprar é no domingo, para o consumidor que trabalha. Então, a gente tem que ver segmento a segmento e definir o que é uma jornada reduzida para aquele segmento.

A ACP, por exemplo, ela trabalha 40 horas por semana. Não seria um grande problema reduzir de 44 para 40, não faz sentido a gente ficar aberto no domingo. Às vezes, ficar aberto pode ter mais despesa do que retorno, isso é comum para várias atividades comerciais. Mas tem outras que deveria ser, inclusive, custeada por hora. O Hemisfério Norte do mundo tem uma legislação baseada em horas de trabalho. Então você pode, de repente, falar assim: ‘eu quero trabalhar 20 horas na empresa A, mais 20 horas na empresa B’. Ele pode compor uma vida pessoal melhor, porque eu acho que a redução da jornada de trabalho… O apelo é que vai melhorar a vida do colaborador da empresa. Mas outra coisa que não fica muito claro: vamos reduzir [a jornada]. Ele [trabalhador] vai trabalhar em outra empresa ou vai descansar pra poder produzir mais na empresa que ele tá lá como colaborador? A lei não tem nenhum dispositivo que garanta que ele vai descansar. Então a gente fica preocupado, qual que é o objetivo dessa dessa reforma que está sendo mal discutida em ano eleitoral? Será que é um projeto só eleitoreiro ou é um projeto que realmente visa melhorar o ambiente de negócios do país?

BP: Mas de qualquer maneira a postura da ACP é contra o projeto ou é de discutir os segmentos que poderiam ter o fim da escala 6×1?
MOURÃO:
A gente é contra o projeto do jeito que está porque a gente entende que precisa ter uma discussão mais ampla. E o ambiente de negócios hoje do Brasil como um todo não permite essa discussão.

BP: E agora vamos entrar em outro assunto, que é o comércio de rua, a questão que o senhor citou do retrofit do Centro. O comércio de rua é uma parte viva da cidade. O quanto a ACP tem participado nos últimos anos das decisões municipais que dizem respeito direto a essa questão do Centro, das regiões comerciais dos bairros?
MOURÃO:
A ACP sempre foi muito atuante junto à Prefeitura de Curitiba, onde a gente pretende atuar politicamente, porque nas demais cidades do estado nós temos as entidades parceiras. A ACP tem uma atuação política na cidade de Curitiba e no estado do Paraná. Com a pandemia, com o fechamento do comércio, nós tivemos vários entreveiros aí com o governo municipal. E com a gestão do presidente Deggerone, que encerrou agora no final do ano, a gente voltou a ter uma aproximação muito grande com a Prefeitura. Hoje, principalmente na gestão do prefeito Eduardo Pimentel, todas as entidades, não só a ACP, mas todas as entidades produtivas do G11, do G7, têm acesso muito fácil aos secretários de governo, todas as grandes discussões. A gente a princípio tem tido a oportunidade de opinar o que é melhor, o que é pior. Inclusive o G11 acabou de entregar ao prefeito um modelo de plano diretor que a gente entende que seria mais produtivo para a cidade de Curitiba, que na última década cresceu 0,1%.

BP: Quem faz parte do G11?
MOURÃO:
São as entidades voltadas para o mercado imobiliário e real estate: Secov, Creci, Sinduscom, e aí a Fecomercio e a ACP pelo lado econômico.

BP: Então, o G11 apresentou um modelo de plano diretor dentro dessa discussão do projeto que está na Câmara?
MOURÃO:
Sim, o G11 se reuniu, custeou. É um projeto caro, contratamos especialistas. Apresentamos 150 sugestões com sete pilares, desde o social, meio ambiente, econômico, no que a gente vislumbra de uma Curitiba mais saudável e ao mesmo tempo produtiva. Foi entregue semana passada.

BP: E qual foi a reação?
MOURÃO:
Uma reação muito boa. A gente decidiu fazer esse estudo exatamente pela qualidade do diálogo que a gente tem hoje com a Prefeitura. Porque se você não tem diálogo, pra que você vai gastar recurso, tempo, pra fazer um projeto que não… Claro que a última palavra é do prefeito. Ele é o mandatário, quem vai responder pelas consequências pra cidade é ele. Mas conversar com o setor produtivo sempre é útil. A gente viu Santa Catarina crescer mais que os outros estados no passado por causa dessa união entre empresários e governo.

BP: E com a Câmara Municipal a ACP também tem esse trânsito, essa discussão toda? Porque essa questão do plano diretor obrigatoriamente passa na Câmara. Primeiro vem o projeto do Executivo e ele será votado na Câmara de Vereadores.
MOURÃO:
Sim, a gente também tem uma excelente relação. Tem as câmaras temáticas da Câmara de Vereadores, onde a gente tem liberdade pra ir lá conversar, entender quais são os projetos que estão em pauta. A gente começou tendo uma pessoa que assistia às sessões plenárias da Câmara. A gente começou daí a desenvolver relacionamento, entender o funcionamento da casa. E hoje a gente entende o funcionamento da casa. Eu acho que as entidades, as instituições públicas do Paraná, elas estão num nível diferenciado. Elas querem essa parceria com o setor privado. Não adianta você fazer lei para que não seja útil. Todo mundo entende que isso aí tem que negociar. O vereador tem que ter o apoio da sociedade, e o que a gente pode mostrar é isso, que a sociedade está demandando isso. Essa visão a gente tem muito clara, porque nós temos as câmaras setoriais que são segmentadas por ramos de negócio e a gente tem um relacionamento com grandes empresários, pequenos, médios. Temos o projeto Comércio Vivo, que é a ACP nos bairros também.

BP: Como é que ele funciona assim? Vocês levam atividades para os empresários de lá?
MOURÃO:
A ideia no Comércio Vivo é fazer cafés de negócios, enquetes com o comerciante, com o empresário local, para entender as demandas e poder colocar no nosso plano institucional da casa de discussão com o poder público. E apresentar as soluções de negócio, porque a ACP, o que ela busca fazer? A gente é um grande hub de soluções para o negócio empresarial. Então tem desde um plano de saúde da Unimed para duas vidas, com um preço diferenciado de balcão. Nós temos certificado digital que hoje a gente fornece. Com uma mensalidade de R$ 29,90, a empresa já recebe o seu certificado digital. A gente está lançando esse ano a Faculdade do Comércio, com cursos de graduação, pós-graduação e curta duração.

BP: Isso em parceria com alguma universidade?
MOURÃO:
Isso com a Associação Comercial de São Paulo. É uma faculdade de ensino à distância, grau 5 no MEC.

BP: E quando vai começar?
MOURÃO:
Começou a primeira turma em março agora. Então a gente tem várias turmas, a princípio são trimestrais, de diversos tipos de curso, onde a gente hoje visita os RHs das grandes empresas para fechar parceria, mas ele está aberto para todo cidadão paranaense. É só entrar em contato com a ACP para conhecer a gama de cursos, e são preços muito atrativos e também com a qualidade de grau 5 no MEC. Então, na verdade, essa área de serviços da Associação Comercial, ela está sempre crescendo. Antigamente era só assim, para ver se não pagava as contas. Era a época do cheque, você trocava e tal. Era esse o serviço, essa a grande discussão. E hoje está cheio de opções. Com a tecnologia você tem que atender outras demandas, inclusive para ganhar também visibilidade e representatividade na sociedade. E tem mais duas novidades que eu estou trazendo agora para essa gestão.

BP: Vamos contar para as pessoas, então.
MOURÃO:
Eu refiz o Conselho da Cultura da Casa, que tem como coordenador o presidente do Ibaza, que é o Instituto Barão do Serro Azul, cuja estratégia é atuar nas áreas sociais, culturais, investimento social. Então a gente vai transformar o Ibasa numa entidade de interesse social no município e no estado, para fazer gestão de projetos que devolvam para a sociedade demandas que sozinha as pessoas não conseguem fazer.

BP: Vai atuar na área cultural também? Podemos aguardar novidades da Associação Comercial na área cultural?
MOURÃO:
Na área cultural também. Teremos muitas novidades na área cultural. Nos próximos dias vão me apresentar a programação e vamos entrar na pauta do Natal da cidade de Curitiba com um evento também diferenciado. Não vou contar ainda o que será, mas pode aguardar, esperar o prefeito anunciar lá em julho. Você sabe que o evento do Natal foi uma surpresa muito grande para o comerciante, porque para cada R$ 1 colocado no projeto retornou mais de R$ 20 em ativação comercial. Então o final do ano teve um resultado muito melhor, porque vem muita gente de fora, principalmente do interior do estado, São Paulo, Santa Catarina, e quem vem acaba consumindo alguma coisa perto das lojas e já vai dando uma circulada. Querendo ou não, Curitiba é a capital do estado. Sempre deve ter algum produto a mais que não tenha na cidade da pessoa.

BP: E tem uma outra novidade muito bacana que é o Hub de Tecnologia da ACP. E o que nós vamos ter nesse Hub de Tecnologia?
MOURÃO:
O hub de tecnologia, na realidade, são locais. O pessoal aluga salas, mesas, onde eles fazem network com empresários e desenvolvem soluções, onde a gente vai selecionar empresas que tenham soluções para o nosso problema, o problema comercial das empresas. E a gente vai fazer integração com outros hubs de universidades, empresários, startups. É o ecossistema que eles chamam de digital, que tem os smart cities também, que eu tenho uma grande apreço pelo pessoal. A gente, inclusive, tem um grupo, um GT de trabalho no Prometrópole, que é um GT de empreendedores e cidades inteligentes, que a gente quer criar uma metrópole inteligente.

BP: A Associação Comercial está se integrando nesse esforço aí de Curitiba.
MOURÃO:
É, porque na realidade, como o entorno de Curitiba em 10 anos cresceu 46% e Curitiba cresceu menos de 1%, a gente precisa atrair esse público que foram para os outros municípios Isso tem a ver com impostos, tem a ver com a qualidade de vida, porque também ficar no trânsito uma hora, uma hora e meia é complicado. Isso aí é um problema das grandes cidades. E com a descentralização dos centros comerciais, você criou uma condição saudável e viável para as pessoas morarem mais próximas do trabalho.

BP: E esse hub de tecnologia já está pronto?
MOURÃO:
A ACP acabou locando algumas áreas com a pandemia e eu estou retomando essas áreas. A princípio, em março ou abril deve estar liberado o espaço. A gente vai fazer o retrofit da área, adequar a área, que fica no mezanino da ACP, ali no prédio central. Não sei quanto tempo vai de reforma, mas eu pretendo lançar ainda esse ano o Hub.

BP: E o Conselho de Cultura já está pronto?
MOURÃO:
O Conselho de Cultura já fez até reunião, já foi lançado. Eu já empossei lá os membros do Conselho. Essas novidades, eu acho que elas se enquadram inclusive nisso. Isso também aproxima a Associação Comercial do curitibano, porque a entidade teve uns períodos aí em que gerou uma certa antipatia, por exemplo, com os posicionamentos do período da pandemia, com o posicionamento lá atrás, quando houve aquela ação contra o projeto que tinha criado o feriado da Consciência Negra. Quer dizer, foi uma coisa que a associação ganhou e ficou por isso mesmo, mas que hoje virou feriado nacional. Mas, de qualquer maneira, gerou um certo burburinho. A associação está buscando superar todas essas questões que ficaram.

Não gosto de avaliar o trabalho dos outros, porque cada situação demanda uma reação. Uma atitude e é sempre mais fácil se analisar depois que ocorreu o fato. Mas agora eu posso comentar que, por exemplo, a defesa do comércio durante a pandemia foi muito positiva para a ACP. O empresário naquele momento não tinha ninguém apoiando ele. Na minha opinião, deveria ter ocorrido uma normatização de funcionamento. É muito difícil você falar o seguinte: você não vai trabalhar, você se vira para comer, para manter o seu negócio, porque as contas continuam. Claro que também a gente não pode culpar o poder público e também existe uma grande indefinição. Por isso que eu digo que a questão da pandemia é um negócio que a gente tem que esquecer. Esquecer da forma positiva, que muita gente não vai esquecer, porque perderam entes queridos, perderam seus negócios, mas é uma experiência que a gente não precisa passar de novo.

BP: A grande mudança da ACP, antigamente, como se comentou da antipatia, a ACP era uma entidade presidencial. O que significa isso?
MOURÃO:
A minha avaliação é que muitas associações ainda são assim. A associação vive em função do presidente. E hoje numa associação moderna, o presidente tem que viver em função da atividade da associação. A associação não está lá para servir o presidente. O presidente está lá para liderar atividades que vão servir os seus associados. E essa mudança a gente já vem fazendo, eu sou o terceiro gestor que provavelmente já vem com essa missão muito clara. A ACP tem que sair do prédio dela, ir para a rua, escutar o associado, escutar a sociedade e entender quais são as demandas necessárias para melhorar o ambiente de negócio, melhorar a qualidade de vida das pessoas. Claro que é uma pretensão muito grande, mas se todo mundo estivesse imbuído desse objetivo, fatalmente a gente estaria em um patamar melhor de sociedade.

BP: Uma outra grande discussão hoje, quando falam em retrofit do centro, também esse assunto vem à baila, é a questão dos moradores de rua, que afeta, sobretudo, os comerciantes da região central, que são o alvo do trabalho de vocês. O que a Associação Comercial pode fazer para ajudar esse comerciante sem também cair naquela outra coisa de higienização da cidade? O que a Associação Comercial quer nessa área?
MOURÃO
: O morador de rua hoje é um problema crônico no país inteiro e também poderia ser em Curitiba. Nas nossas enquetes hoje, o comerciante entende que o morador de rua é um problema para o negócio dele. Dá muito trabalho conviver com o morador de rua na frente do seu negócio. A ACP tem uma posição muito clara. Quando ocorreu a internação compulsória pela prefeitura, eu fui a primeira entidade a parabenizar o prefeito, porque tem que entender três coisas. O que é o morador de rua? O morador de rua é uma consequência de Sistema prisional que não funciona direito, que você libera o preso, às vezes não está qualificado, não tem nem pra onde ir, ele vai pra rua. São caras que normalmente sofreram uma perda: perderam um ente querido, perderam a casa, perderam a família, vão pra rua. Quando o cara fica muito tempo na rua, ele acaba tendo contato com o álcool ou com a droga. Quando você consegue rapidamente cadastrar essas pessoas, entender as demandas e ele ainda está no gozo normal do seu raciocínio, você consegue dar um atendimento, uma dignidade para essa pessoa e às vezes resgatar para voltar a conviver em sociedade. Infelizmente hoje tem muitas pessoas que não tem mais essa condição. E você não pode deixar essa pessoa na rua até por dar dignidade a ela, porque ela não vai resistir muito tempo na rua. Então quando falam compulsório, compulsório hoje tem apoio da lei. Precisa da família autorizar, o mandaDo judicial, você tem formas de fazer isso com dignidade, com respeito. E o maior respeito é você mostrar o que está sendo feito com a pessoa e, principalmente, mostrar o resultado final. Não temos que acabar com essa discussão política do que é bom ou ruim. Bom é salvar vidas. Na nossa Constituição, a pessoa tem que ter direito à saúde, à educação, à moradia. O morador de rua é um problema social. Ele não está lá porque ele quer, mas ele tem que estar por uma condição. Não é razoável a pessoa achar que é normal morar na rua. Senão todo mundo estaria morando na rua, né?

BP: Mas qual a postura, por exemplo, da associação em relação aos restaurantes do Mesa Solidária, que alguns comerciantes se queixam muito de que ‘ah, eu não quero aqui porque estraga meu negócio’, mas onde vai ficar?
MOURÃO:
O problema dos restaurantes solidários é que ele também não tem um controle. O cara pode ir lá pegar quatro, cinco, seis alimentações e troca por droga. Existe um comércio paralelo que, infelizmente, a nossa legislação é muito deficiente, Porque você hoje recolhe uma pessoa no dia seguinte e ele está na rua de novo. Até aquela discussão, se tiver só com um pacotinho de droga, mesmo que esteja vendendo, ele não pode ser preso, porque daí ele não é o traficante. Esse tipo de discussão bagunçou a sociedade e a estruturação das cidades. Esses restaurantes sociais têm que estar próximos dos abrigos sociais, porque se ele estiver fácil em locais que sejam de interesse para a pessoa, essa pessoa não tem preocupação. Não entende que o comércio tem que funcionar para pagar imposto para o governo poder propiciar isso para ele. Se ele bagunça a região, o comércio não fatura mais. Esse tipo de coisa não pode estar nessas áreas privilegiadas.

Hoje o da Catedral ali, devido a esse problema do tráfico de drogas, ele é um mini centro de drogas ali, onde a polícia semanalmente dá batida, recolhe as pessoas e eles voltam. E quando dá uma batida lá, eles saem ali do Centro e vão para um anel um pouquinho mais longe. Dá a batida do outro lado, eles voltam para o Centro. Porque a legislação brasileira não pune as pessoas ou não quer resolver o problema, ela não é apta a resolver problemas.

BP: Houve pedido para retirar dali?
MOURÃO:
Sim. Essa é uma solicitação dos comerciantes. A gente entende que o Centro, para poder ter a vocação dele, como vem aumentando significativamente a atividade de turismo em Curitiba, é uma região importantíssima para o turismo. Ela faz integração com o Largo da Ordem, faz integração com a XV, com o Paço Municipal. Não é um local para esse tipo de coisa.

BP: A prefeitura já deu retorno sobre isso?
MOURÃO:
A prefeitura está buscando outras áreas alternativas, mas aí existem ONGs, existem tanta coisa que é um cabo de guerra isso daí. Lá em São Paulo tem aquele caso célebre do padre lá que quer distribuir comida lá no Centro, e a gente brinca: por que que os movimentos sociais não distribuem alimentação nos seus centros? Por que eles vêm pra rua fazer isso? A ajuda hoje tem que ser estruturada. Porque às vezes você tá fazendo um bem pra uma pessoa e fazendo um mal pro outro. Parece que você tá só fazendo o bem, mas você tem que analisar o contexto todo da região, do local. Você tá atrapalhando um direito que a pessoa tem de exercer a atividade econômica dela. É uma discussão doída, difícil, porque também cai num outro extremo, né? Então tem que botar pessoas que não sejam extremadas, pessoas que queiram buscar uma solução equilibrada. E aí o problema é que sempre os extremos aparecem com mais força do que o acordo, a solução conciliatória.

BP: A posição da Prefeitura, na sua visão, ela está correta? De retirar o morador de rua compulsoriamente.
MOURÃO:
Em alguns casos, mas também não se pode agir como se isso fosse no atacado. Olha, eu já tive morador de rua no meu comércio na Carlos Carvalho, em outras gestões. Você ligava lá na FAS, porque você não pode retirar a pessoa da rua, e eles nunca atendiam. Hoje em dia, se você ligar lá, você vai ter um retorno. Infelizmente, eu acho que tem tanto morador de rua, e isso é consequência da pandemia, principalmente, da economia brasileira que ficou enfraquecida. E antes da pandemia tivemos uma crise econômica, o comércio já começou a ter reflexos de redução de consumo naquela época. E com a pandemia foi o auge, claro. A atividade econômica diminuiu, as perdas aumentaram, e mais gente foi para a rua. E é crescente isso. Nos últimos dez anos, cresceu mais de 45% os moradores de rua.

BP: Vocês trabalham com que dado de moradores de rua hoje?
MOURÃO:
Nós temos até o dado do ano passado, que foi declarado 5.400 e pouco, mas eu acho que esse número hoje é muito maior que isso.

BP: A ACP foi uma entidade que sempre participou dos períodos eleitorais, com debates, com sabatinas, discussão de temas. E esse ano tem eleições gerais.
MOURÃO:
Sim, esse é um formato já consagrado, só que é uma eleição muito ampla, desde senadores, governadores, deputados. E a gente gosta de abrir, dar voz para todos os partidos, todos os candidatos. Nós temos o nosso conselho político, que é um conselho político e desenvolvimento econômico. Embora a gente faça essa sabatina política, eu acho que a missão da ACP é olhar a política pelo lado de economia. São as propostas que o candidato tem para garantir um ambiente estável para desenvolvimento da atividade empresarial. E nós continuaremos fazendo o mesmo modelo que a gente tem das sabatinas, mas ainda não temos nem agenda, nem nada preparado, porque tem que aguardar agora o começo de abril.

BP: Vocês pretendem trazer os presidenciáveis também?
MOURÃO:
Não sei dizer se os presidenciáveis virão. Alguns já estão entrando em contato com a gente, embora não seja oficial, mas já tem presidenciáveis querendo vir à Curitiba, dar depoimentos, participar de eventos. Provavelmente teremos, sim.

BP: A Associação Comercial não se manifesta favoravelmente ou contra alguma candidatura?
MOURÃO:
cada diretor, cada conselheiro tem sua preferência pessoal. Mas a ACP, como entidade, não se manifestará. Nem faz sentido isso. A associação tem que conviver harmoniosamente institucionalmente com qualquer tipo de partido, legenda política. E aí com uns a gente vai ser mais incisivo na nossa pauta. Com outros que já são mais aderente à pauta, provavelmente a gente vai ter um convívio mais harmonioso.


Fonte Bem Paraná

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