na primeira divisão, 70% dos times não usam camisa 24

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Abel Braga no Inter (foto: Ricardo Duarte / Internacional)

A fala homofóbica de Abel Braga em sua apresentação no Internacional, no começo desta semana, voltou a chamar a atenção para o preconceito no futebol brasileiro. Associado ao animal veado no jogo do bicho, o número 24 não é usado em 70% dos times que jogam a Série A deste ano.

Em sua apresentação, Abel declarou que não queria mais que o time treinasse usando camisa cor-de-rosa, cor do material de treino fornecido pela Adidas para o clube. “Eu não quero a porra do meu time usando camisa rosa, parece time de veado”, declarou. Depois, ele pediu desculpas nas redes sociais, mas o estrago estava feito.

Dos 20 times que jogam o Brasileirão neste ano, apenas seis têm um camisa 24 no elenco. E todos são goleiros. São eles: Aranha [Palmeiras], Fernando Costa [Bragantino], Gustavo Felix [Fluminense], Leo Linck [Botafogo], Anthoni [Internacional] e Thiago Beltrame [Grêmio]. Deles, apenas o botafoguense é titular.

Os outros 14 clubes da elite nacional não têm a camisa 24 utilizada neste momento. Corinthians, São Paulo, Santos, Mirassol, Flamengo, Vasco, Atlético-MG, Cruzeiro, Juventude, Bahia, Vitória, Sport, Ceará e Fortaleza estão nesta lista.

“Há ainda algumas disputas, mas eu acho que é um espaço hegemonicamente masculinista, onde debates mais aprofundados acerca de questões de gênero, possibilidade de convivência, debates ligados à sexualidade são muito fechados e restritivos. Não acho que seja só uma questão dos vestiários dos clubes, mas também é das confederações e do entorno futebolístico”, disse Mauricio Rodrigues, historiador e doutor em antropologia pela Universidade de São Paulo (USP).

Na seleção

O número já causou polêmica na seleção brasileira. Em 2021, o Brasil foi a única seleção a não ter um camisa 24 no elenco para a disputa da Copa América. Naquela ocasião, Ederson foi o 23 e houve um salto para Douglas Luiz, que ficou com a 25. Na ocasião, 24 jogadores foram convocados.

A CBF chegou a ser interpelada judicialmente pelo grupo Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT por não ter utilizado o número 24. A ação terminou sem maiores consequências, e a entidade se defendeu dizendo que o número 25 era mais adequado para um volante.

O Corinthians também teve uma polêmica. Acostumado a usar o 24 no Junior Barranquilla, o meia Victor Cantillo foi anunciado com a camisa 8 no Timão -o clube alegou ser uma homenagem a Freddy Rincón, ídolo colombiano. Na apresentação do atleta, o então diretor Duílio Monteiro Alves, disparou: “24? Aqui não”. Depois, ele se desculpou nas redes sociais, e o jogador apareceu usando o número dali em diante.

“Reconhecer e aceitar o 24 como número qualquer a ser utilizado em uma camisa de um jogador mostra o quanto ainda temos de avançar no tema da diversidade sexual, do respeito, do combate ao preconceito à comunidade LGBTQIA+ no futebol. “

“Há três anos, entramos com uma ação contra a CBF por causa da questão do número, depois chegamos a um acordo para que pudesse haver mudanças nos regulamentos, e também nessa prática de tratar o número 24 como associado à comunidade. Essa dificuldade e rejeição mostram que é necessário que o futebol e a Justiça desportiva debatam a necessidade de ter ações afirmativas frente ao preconceito”, disse Claudio Nascimento, coordenador executivo do Grupo Arco-Íris.

Desculpas de Abel

O treinador publicou uma mensagem pedindo desculpas nas redes sociais. Segundo ele, a “colocação sobre a cor rosa” não foi boa e “cores não definem gêneros”.

“Colorados e coloradas, em primeiro lugar, reconheço que não fiz uma colocação boa sobre a cor rosa durante a minha coletiva. Antes que isso se prolifere, peço desculpas. Cores não definem gêneros. O que define é caráter. O Internacional precisa de paz e muito trabalho. Vamo, vamo Inter!”, disse Abel Braga, em seu Instagram.

A declaração repercutiu. Grupos LGBT afirmaram que vão acionar o STJD contra Abel Braga. Internamente no Inter, a fala também não pegou bem e foi considerada desnecessária, ainda que alguns tenham relevado o assunto. O clube luta contra o rebaixamento e trouxe o treinador justamente para “blindar” o elenco em um momento decisivo.

É muito estarrecedor saber que no futebol brasileiro ainda se encontra muita dificuldade para se pensar e atuar numa perspectiva do respeito às diferenças e à sexualidade das pessoas. Essa declaração do Abel Braga é muito chocante porque ainda associa a ideia de masculinidade, a ideia de ser homem, à cor de roupa. Uma ideia antiquada que precisamos, cada vez, mais discutir.

“Não é possível ainda um líder, um dirigente, um treinador, falar coisas absurdas e isso passe despercebido. O Grupo Arco-Íris estará sempre atento e acompanhando esse processo civilizatório no futebol, porque o que vivemos ainda são espaços inseguros, não acolhedores. Temos o direito de frequentar todos os espaços, o direito de ser torcedor, ser jogador… Não é aceitável que dirigentes, treinadores, líderes de times e de federações permaneçam achando que é normal agredir e ofender pessoas homossexuais”, disse Claudio Nascimento.


Fonte Bem Paraná

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